domingo, 9 de março de 2008

Metamorfose Precoce

Há atitudes de adulto que supostamente só existem dado o conhecimento adquirido com a idade, ou devido à influência da informação injectada pelos media acerca de tudo o que nos rodeia, como por exemplo aqueles em que numa conversa a três após o terceiro elemento de afastar se muda radicalmente a conversa, seja para aquela cusquisse privada, seja para um qualquer comentário mais reservado, já pra não falar no popular corte e costura.

Digo momentos de adulto porque achava eu que as crianças viviam num mundo mais utópico, mais desprovido de picarias, e que somente a partir da adolescência essa vertente se começava a revelar. Na semana passada descobri que me enganava redondamente e que esses tempos já estão numa fase de upgrade evolutivo.

Passou-se na hora de almoço no trabalho, e em que na mesa atrás estava um colega com o filho e um amigo do filho, miúdos dos seus 9 anos no máximo e que comentavam as suas lições e progressos. Comecei a almoçar e fui desinteressadamente ouvindo os relatos infantis das aulas de inglês, de como tinham corrido os exercícios, de como se dizia isto e aquilo, tudo numa maré de pura infantilidade trocando conversa com o adulto, deixando-me na mente as lembranças de quando era miúdo e descobri os prazeres puros da aprendizagem de inglês, como por exemplo quando aprendi a dizer “Hello, my name is Sérgio” com o prazer de o soletrar na perfeição, para anos mais tarde ouvir o Zézé Camarinha assassinar a gramática com outros intuitos e acabar a ser estrela de tv/praia/engate. Adiante.

Estava eu nestes pensamentos do suspiro, quando às tantas o meu colega os deixa na mesa, ficando eles na conversa. Diz um ainda em voz angélica “esta sobremesa é mesmo boa, queres?”. Responde o outro num alterado tom de adulto que me abriu os olhos “Achas? Tu não és gordo, mas eu tenho tendência para engordar”. Ao que riposta o primeiro já no mesmo tom evoluído “Pois, lá isso tens mesmo, hehe, eu tenho tendência é pra ficar com uns grandas abdominais”.

Meus amigos, foi a desilusão, o choque, a aterragem na realidade e nas frases reais (citando Albarran). Percebi que o meu mundo de ilusão não passava mesmo disso, e com a continuidade da conversa que além disso o jogo de pressão já começa nas camadas jovens.

Diz o Mr. abdominal “Eu como doces e não engordo, farto-me de comer porcarias e olha lá a minha barriga, oh”. O outro soltou um desinteressado “pois tens…” e prosseguiu em resposta de pressão “…mas sabes, tu assim vais acabar diabético, nem te quero imaginar coitado de ti…”, levantando-se da mesa e seguindo de fininho em direcção à saída. Percebi que o primeiro se tinha engasgado com o comentário e ficado logo todo apanhadinho quando retorquiu com um “O quê? Vou ficar o quê?”. Só consegui ver de soslaio o segundo a passar por mim com uma cara de cínico gozão ao belo estilo toma-que-já-te-lixei, a responder ao desamparado que já vinha atrás dele “Diabético. Nem te devia dizer isto, mas só quero ver depois como é que vai ser…”.

Fica o aviso, eles “andem” aí, provavelmente a quererem de prenda comprimidos de L-carnitina em vez de jogos prá Playstation. Quanto a mim, vou continuar a comer os doces que quiser em casa, mas no refeitório vou optar pelas fatias de abacaxi. Não vá vir uma miúda com totós e com um chupa-chupa light, e me mandar a boca de que qualquer dia tenho um enfarte.


4 comentários:

David disse...

Só há duas palavras para descrever isto:

- im
- pressionante (neste caso até está bem enquadrada no contexto).

Isto cheira-me a influências das novelas da TVI, principalmente a coisa de “Morangos com Açúcar”.

As futuras gerações serão educadas pelos media, sharodependentes, em vez de serem educadas pelas escolas e pela família. Onde é que isto vai parar?

Tendo em conta que estamos uns anos atrasados face aos países ditos de “primeiro mundo”, daqui a uns anos seremos semelhante aos norte-americanos (Ah!, estou muito mais descansado!). Isto tudo com uma ressalva (para os norte-americanos), eles foram pioneiros, não sabiam para onde iam!

Contudo, há que salientar uma das diferenças de comportamento dos nossos futuros jovens face aos já conhecidos comportamentos dos norte-americanos: os nossos jovens em vez de comerem Big Macs em frente à televisão irão comer Big Vegetables, sendo que parte da população irá criticar esse tipo de alimentação (tal como hoje se faz com a fast food) e irá devorar talos de brócolos e de couve-flor.

AMC disse...

Nem sei se acho espectacular se acho deprimente..:)

Sergei disse...

Eu que ainda estava no patamar em que pensava em que os miudos iriam na fase das playstations e informática sei-mais-que-tu-porque-nasci-com-chip.integrado, e afinal já andam nesta onda...

Acho que deve ser mesmo na linha Morangos tv-education que andam agora, e se por um lado de evolução pode ser considerada uma evolução espetacular muito discutivel, o mesmo peso tem para o lado deprimente, de facto.

Eu manter-me-ei na comida integral por preferência, e no local do costume nos momentos habituais: no Burguer King :)

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